Fluir mag - Abriu 2007






Fluir magazine entrevista Alessandra

Simplesmente uma surfista

As notícias que as revistas estampam sobre a supermodelo Alessandra Ambrosio fazem a gente acreditar que ela está acima de qualquer mortal: estrelando ao lado de Gisele Bündchen e Adriana Lima o aguardadíssimo desfile anual da grife americana Victoria’s Secret, contratos de milhares de dólares com os mais famosos estilistas do mundo, fotos numa paradisíaca praia da Jamaica para um catálogo, uma viagem até Londres para a première do último filme de James Bond, no qual faz uma ponta... Mas conversando com Alessandra, gaúcha de Erechim, 25 anos, a gente percebe que como a maioria de nós, “mortais”, ela só quer mesmo é ter tempo para surfar – o que faz há cerca de cinco anos – e para encontrar seu namorado, o também surfista e editor da FLUIR Steven Allain. Nas indas e vindas entre Nova York, onde mora, e o Brasil, Alessandra surfou muito no último verão. Na última vez que conversamos, alguns dias antes do fechamento desta edição, a top estava a caminho do hospital para tratar de um corte no pé, feito pela quilha de sua prancha, o que não diminuiu em nada sua fissura e seus planos de, dentro de alguns anos, diminuir o ritmo de trabalho para poder ficar mais tempo na praia.



A sua infância, numa cidade no interior do Rio Grande do Sul, não deve ter sido muito perto do mar...
Não. Erechim fica a mais ou menos seis horas do litoral, é longinho...

E sua história com o mar começa como então?
Todas as férias a gente ia pra praia, sempre com uma pranchinha de isopor, bodyboard, uma coisa assim. Deixa eu ver quando é que eu me interessei mesmo... Acho que foi há uns quatro, cinco anos. Eu estava lá em Los Angeles com uns amigos e eles iam surfar, aí eu falei: “Deixa eu tentar”. Eu fazia bodyboard, nunca fui ótima, mas eu adoro água, foi brincando.Aí meu amigo me colocou em cima da prancha e eu fiquei de pé! A sensação foi maravilhosa! Eu falei: “Nossa! É muito bom estar em cima de uma prancha surfando”. Depois disso eu encanei no surf, pra todos os lugares que eu vou sempre tem praia, eu faço mergulho ou surf, um dos dois. Se não tem onda eu vou fazer mergulho e se tem onda eu vou surfar.



De cara você ficou de pé?
Ele me ensinou como é que ficava de pé, como é que se fazia para subir, era um pranchão. A primeira vez ele me empurrou na onda e eu caí. Na segunda eu já consegui ficar de pé, foi ótimo!

Aí você comprou prancha depois?
Depois disso eu fiz escolinha de surf lá em Florianópolis. Eu tenho um apê na frente da praia, na Brava. Na metade do ano eu fui pra Bali, tem umas ondas que pra mim são gigantes, mas tem ondas que são perfeitas para aprender. Então faz quatro anos que eu vou para Bali e tento surfar. Eu comprei minha primeira prancha há uns dois anos no Brasil. Depois disso a Victoria’s Secret me deu uma prancha rosa, é a coisa mais linda! Eu mandei fazer outra igual. Daí eu tenho uma em Nova York, que eu levo quando eu viajo, e outra no meu apê em Floripa, que é uma 5’9”.



Vamos falar um pouquinho de Bali. É uma de suas viagens preferidas, não é? No seu site (alessandraambrosio.com) tem vídeos sobre as trips.
Você já fez viagens pra surfar para outros lugares?
As viagens que eu fiz para surfar mesmo, que eu me preparei foi Bali. Eu já fui pro México, já surfei umas ondinhas lá também. É onda pequenininha que eu pego, não pego nada muito grande. Ano passado o Kelly Slater fez um evento para arrecadar fundos, e me convidou porque eu tenho uma amiga que é modelo, a Marissa, e ela surfa superbem. Ela é californiana, amiga do Kelly, e falou pra ele: “Ah, tenho uma amiga, a Alessandra, que adora surfar também”. Aí ele me convidou para ir ao evento, no Hawaii. A gente tinha que competir, era meio que aprender. Pra cada pessoa que estava lá, que ele tinha convidado, tinha um surfista profissional do lado ajudando. Eles levavam a prancha pra gente lá pro outside e tal. Foi a maior onda que eu peguei, por mais que fosse pequeno, para mim o negócio foi gigante.

E o que você achou?
Foi maravilhoso, eu devo ter surfado umas cinco ondas. E eu falava assim pro meu instrutor: “Não me deixa olhar para trás, porque se eu vir o tamanho da onda eu não vou querer ir”. Uma hora eu tomei um caldo, eu caí meio que de frente, e embaixo tinha corais e eu morri de medo. Pensei: “É agora que eu vou desmaiar”. Fiquei um pouco com trauma e depois eu nem queria surfar muito. Fiquei só vidrada esperando o pessoal acabar, mas mesmo assim o que eu surfei foi maravilhoso.



Como foi sua temporada de ondas neste verão no Brasil?
Surfei pela primeira vez em Maresias, é uma onda perfeita, parece Bali, adorei. Eu e o Steven surfamos muito juntos, foi muito bom. Ontem no Rosa eu surfei o quanto deu. E hoje vi que tinha cortado o pé na quilha, vi que estava sangrando, mas ainda surfei um monte, até meus amigos insistirem que eu tinha que ir no hospital. Agora cada segundo que eu tenho, eu quero aproveitar pra surfar. Estava em Nova York, tinha quatro dias livres. Falei: “Eu não vou ficar aqui, com esse frio”. Peguei o avião e vim aproveitar as ondas.

Você falou desse caldo no Hawaii. Tem mais algum fato inesquecível para você no surf? Algum episódio que tenha acontecido que tenha sido muito marcante nesse tempo que você surfa?
Em Bali uma vez eu estava com um amigo meu, o Darcy (Guimarães, colaborador da FLUIR), e ele me levou pra surfar. Peguei uma prancha dele e ele ia fotografar a galera surfar. Eu fui com ele porque as ondas estavam maiores. O tamanho das ondas que passavam por mim eram imensas. Sabe quando você fica até meio desesperada? Eu estava respirando muito rápido e pensava: “Ah, se alguma quebrar na minha cabeça eu tô ferrada...”. (risos) Mas assim, o meu surf é bem por diversão. O ano que vem, eu estou tentando, talvez eu me mude para a Califórnia. Porque o problema para mim é que toda vez que eu começo a pegar o ritmo de surfar, eu paro, venho trabalhar de novo, fico em Nova York, Londres, lugares que não têm onda. Então eu passo muito tempo sem surfar. Às vezes fico três meses sem pegar uma onda.



Você está falando de mudar e que o surf influencia um pouco nessa decisão de mudança. Como é que você sente o surf presente na sua vida? Você acha que influencia no seu jeito de vestir, nas coisas que você escolhe para comer, em um móvel ou outro que você coloca na sua casa, um quadro na parede?
Com certeza, eu adoro mar. Tenho várias paisagens de mar, eu gosto muito de água, desde pequena. Eu tenho a minha prancha, a prancha está na minha sala, por mais que eu não a use em Nova York, ela está na sala. A minha casa tem aquele estilo balinês, e isso tem a ver com o surf, com natureza, uma coisa mais zen. Quando eu estou em Nova York eu tento malhar para continuar, para ter disposição na hora de surfar. Eu pensei: “Vou começar a malhar, dar uma nadada, pra quando eu chegar na água ter força para remar”. Eu gosto de coisas naturais, adoro comida fresca, orgânica. No Brasil, tem tudo o que é natural, e isso é parte do surf.



Tem alguma viagem que você ainda sonha em fazer surfando?
Assim, Bali eu surfo normalmente Kuta e Dreamland, mas um dia ainda eu quero surfar Uluwatu, Padang Padang. Não sei se um dia vou conseguir, porque Padang é uma onda que, nossa... Uluwatu, toda vez que eu vou pra Bali eu falo: “Um dia eu vou surfar essa onda. Vou descer com os meninos e vou surfar Uluwatu”. Tem muitos lugares que eu quero ir, não agora porque eu sei que eu não posso me jogar na água. Depois eu fico uma semana no lugar e vai que eu me machuque... Eu preciso trabalhar, eu dependo do meu corpo, do meu rosto para o meu trabalho. Não posso ser inconseqüente nessa parte, eu tenho que saber me cuidar. Óbvio, eu sempre tento fazer o máximo até onde eu posso, sempre com precaução para não me machucar. Eu quero muito ir pro Tahiti, mas tem muito treino, muito treino. Até o ano passado, porque esse negócio do Kelly era para ter sido em Fiji ou Teahupoo, mas por vários motivos não pôde. E quando me mostraram as fotos, eram maravilhosas, e a onda é incrível.

Você falou que procura malhar para não estar tão despreparada para o surf. E o contrário? Você sente que quando está surfando mais intensamente o surf faz bem para o corpo, faz bem para você se sentir mais bonita?
O surf influencia muito no corpo, os braços, as pernas, o surf é um superesporte, para o físico eu acho incrível. Todo surfista é gostoso, todo surfista tem corpão, isso pelo menos todos eles têm.

Bom, já que você entrou neste assunto, o que acha de namorar um surfista?
Acho legal a mentalidade deles, o jeito de vida mesmo, gosto daquela coisa de ser saudável, de se integrar com a natureza. Tudo que faz bem pro o corpo, eles curtem o que é bom da vida, o que a natureza dá pra gente, tiram o máximo disso, eu acho demais.



Além da Marissa de que você falou, a Gisele disse que pega onda de vez em quando. Tem mais gente do seu meio que você saiba que curte surfar?
Não tem muitas, eu, a Gisele... A Marissa é a melhor. Como ela nasceu na Califórnia e o pai dela era surfista, ela é a melhor modelo-surfista que eu conheço. Tem uma amiga minha em Nova York, a Cassia Lara, ela também pega onda. Como ela não viaja muito, ela acaba ficando mais em Nova York ela pega onda por lá mesmo. Jones Beach acho que ela vai, não me lembro, mas eu nunca fui lá porque a água é muito fria também. Eu gosto de surf até um ponto que me dá prazer, sofrer eu não quero...

Você tem algum ídolo entre os surfistas ou as surfistas?
Humm, deixa eu pensar... Ai, não sei. Eu sei que todo mundo adora o Kelly Slater, eu acho ele um puta surfista também, mas acho que ele e todos os amigos dele, todos os caras que estavam quando eu fui pro Hawaii, são os grandes surfistas. Mas meu ídolo agora é o Steven. (risos)

Surf feminino você não acompanha muito?
Feminino não. Até vejo alguma coisa, mas eu não gravo o nome delas não. Eu estava vendo na internet o evento que teve no Hawaii, achei que as meninas mandaram muito bem. As mulheres estão a cada dia se interessando mais pelo surf, antigamente era só pra homem. Hoje o mercado cresceu muito para a mulher. Irado!



Alguém mais da sua casa surfa?
Sim, minha irmã (Aline) surfa comigo. Ela não gosta tanto quanto eu, eu gosto mais de surfar, mas ela vai comigo, eu obrigo (risos). Ela tem menos medo. E ela sempre viaja, todos os lugares que eu vou, ela está comigo. Ela estava no Hawaii, sempre foi pra Bali comigo, Floripa a gente vai surfar juntas também... Ela tem mais coragem que eu pra pegar onda, ela não tem tanto medo. Se a onda é um pouquinho maior eu já fico com medo, ela não. O que uma tem a outra não, e as duas juntas se ajudam.

Você ainda tem pela frente alguns anos de trabalho muito intenso como você está tendo agora. Quando a sua vida der uma acalmada, surf é uma das suas prioridades?
Pô, com certeza! Eu quero morar na praia, viajar para os lugares de surf, ver onda. O pessoal sempre pergunta: “O que você vai fazer depois que parar de ser modelo?”. Eu pretendo parar daqui a uns quatro, cinco anos. Aí eu falo: “Meu, por enquanto a única certeza que eu tenho é que quero surfar muito”. O resto eu ainda não sei o que fazer. Eu quero ter filho, quero que meus filhos surfem. Quero ter uma vida calma, gostosa.

Tem um lugar em que você pensa e fala: “Quero morar nesse lugar”?
Acho que em Florianópolis. Eu adoro ficar perto do Rio Grande do Sul, mas quero um lugar onde tenha praia.

Por: Nilma Raquel
Publicado em: mar/abr 2007. ed. 26

Fonte: Revista Fluir


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