AUM (OM)





AUM (OM) - Xamanismo, Hinduismo
Universo paralelo


O trance, além de estilo musical, pode ser considerado uma experiência lisérgica para alcançar outros níveis de consciência. As pessoas buscam a transcendência ou espiritualidade no ambiente psicodélico através da música, com auxilio das drogas, contato com imagens da cultura mística, símbolos de deuses e rituais tribais. O trance psicodélico tem uma conexão direta com o misticismo, fazendo referências principalmente ao Xamanismo e ao Hinduismo. Nos rituais xamânicos, ritmos fortes acelerados e o uso de plantas alucinógenas provocam os efeitos de transe necessários para alinhar o corpo, mente e alma, atingindo uma suposta comunicação dos índios com os seus deuses. Em transe e em outro plano espiritual, os índios adquirem ensinamentos em suas experiências, sempre em contato com a natureza. No trance, as batidas do xamanismo se tornam eletrônicas com caráter hipnótico à música, e as drogas, em grande parte, sintéticas. Em ambos ambientes, seja no ritual tribal xamânico ou no ritual eletrônico trance, a dança representa a busca por um estado de transcendência coletiva. Podemos inclusive comparar os líderes espirituais, Xamãs, com os DJs. Ambos controlam o ritmo, a frequência, a velocidade do som psicodélico, proporcionando aos demais o estado de transe. O Psychedelic Trance recupera o sentido tribal e transcedental de dançar. As raves se comparam às cerimônias indígenas religiosas, como as do Pow-wows americanos, ou nos cânticos noturnos do índios Truká (interior de Pernambuco), que usam a música repetitiva e a droga Jurema para contactar um universo paralelo. A trindade Hindu é Brahma, criador; Vishnu, mantedor; e Shiva, destruidor e regenerador. Todos são manifestações de Brahman, Deus no principio, deus sem tributos, a essência pura. A referência que o Trance faz ao Hinduismo vem, principalmente, através de Shiva e do mantra (som) ou yantra (escrita) AUM. O AUM é uma sílaba sânscrita constituída por três letras: A, U e M, e pronuncia-se OM, pois, no sânscrito, a vogal “O” forma-se pelo ditongo a+u. É a semente de todos os mantras e de toda a consciência. Nesta sílaba, “A” representa o Criador, a ação, Brahma; “U” representa o Conservador, a consciência, Vishnu; “M” representa o Destruidor, a vontade, Shiva. É o mais poderoso de todos os mantras. O som é uma prece, um meio de invocar o Senhor. Por ser o som primordial, seu enunciado contém uma carga energética eficaz no que concerte à transformação espiritual. Os três elementos do som OM (A,U,M) regem uma lista de divisões ternárias: veda ( Rig, Yajur, Sama), estados do ser (vigília, sonho, sono profundo), períodos (manhã, tarde, noite), estados de manifestações (grosseiro, informe, sútil), elementos (fogo, água, vento), poderes (ação, conhecimento, vontade). O AUM simplesmente significa o alfa e o ômega, o começo e o fim. No yantra om (3õ) o número 3 representa a tríade hindu e o “õ” representa o som OM. Muitos produtores inserem samples de mantras OM, trazendo ao trance um aspecto espiritual, na qual invocamos Shiva e através da dança frenética, proporcionada pelo ritmo acelerado do trance, esquecemos as diferenças, a raiva e a maldade. Um exemplo da manifestação da cultura hindu no trance é a expressão Boom Shankar. Não é apenas o nome da música do GMS, Skazi e Parasense. Boom Shankar é uma prece ou prova de respeito a Shiva, pois Shiva é Shankar. Em alguns lugares é uma forma de despedida entre as pessoas. Outra grande semelhança entre o trance e o hinduismo está na dança, nos movimentos. Os hindus dançam com o corpo todo, saltando, girando e executando movimentos mais soltos com os braços. Nesse aspecto, faz-se também uma referência ao candomblé: o que leva ao estado de catarse são os movimentos repetidos da dança rítmica. O estudo dos primórdios da civilização mostra a ligação entre a dança e a busca do espiritual. Dessa forma, a dança deixa de ser um simples movimento e passa a ser uma ferramenta para ampliar a capacidade sensorial e de compreensão do mundo. O objetivo dessa conexão transcendental, seja de caráter tribal, hinduista, ou outro qualquer dentro desses parâmetros, é ampliar os limites do corpo e da consciência através do contato com a natureza e o ambiente que nos cerca. Quando dançamos trance psicodélico, estamos, acima de tudo, alinhando o corpo e a alma, construindo a auto-imagem do corpo, e destruindo todas as energias negativas. Contudo, essa suposta espiritualidade possui fragilidades. Infelizmente, muita gente só consegue chegar a um estado extra-corpóreo através das drogas. No Hinduismo, deve abster-se do ódio, dos excessos e dos vícios para obter o autocontrole. No Xamãnismo, as ervas naturais são utilizadas com responsabilidade e sob controle de um Xamã experiente, não possuem contra-indicações, tampouco são ilegais. Acredita-se, também, que a associação das religiões com transes coletivos é oportunista, uma pseudo-espiritualidade, usada como desculpa para o uso das drogas. A atmosfera psicodélica do trance e os movimentos rítmicos da dança proporcionam prazer sem o uso das drogas, fato científico. A quantidade de betaendorfina e de ocitocina (hormônio também relacionado ao orgasmo) liberada no organismo quando dançamos nas raves, levam o corpo a um estado de transe, satisfação, êxtase e prazer. Mesmo podendo ter um aspecto espiritual para alguns, trance não é religião. Pode ser uma ferramenta que proporciona um estado de transcedência coletiva. Mas, acima de tudo, trance é arte e cultura. Um estilo de vida. “Desde os primórdios da humanidade que a música e a dança são utilizadas para que possamos comungar com o espírito da natureza e do universo .


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